Volume traz poesias completas de Paulo Leminski (1944-1989) |

Volume traz poesias completas de Paulo Leminski (1944-1989) | Lexicon 80.

 

Um hai-kai, uma das formas de poesia preferidas de Paulo Leminski (1944 – 1989), não seria suficiente para definir a grandeza do poeta, romancista, tradutor, compositor, biógrafo e faixa preta de judô curitibano. Mais adequado, o livro “Toda Poesia”, lançado recentemente pela editora Companhia ds Letras, percorre a trajetória poética do escritor maldito, com a reedição de poemas famosos, inéditos e ensaios sobre sua obra.

13440_ggO volume, com projeto gráfico e capa brilhantes de Elisa von Randow, traz de volta clássicos como “Distraídos Venceremos” e “La Vie en Close”, além de raridades como “Quarenta Clics em Curitiba” [leia abaixo] e versos fora de catálogo. E reúne ainda apresentação da poeta (e companheira do autor por duas décadas) Alice Ruiz S, posfácio do crítico e compositor José Miguel Wisnik, e um apêndice que reúne textos de, entre outros, Caetano Veloso, Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés.

Filho bastardo da poesia contreta de Décio Pignatari e dos irmãos Campos e precursor do neolirismo da “geração mimeógrafo”, Leminski foi e continua sendo único, no sentido que sua subversão e excentricidade não permitiam e ainda não permitem encaixá-lo em rótulos ou gêneros.

Genial, inspirado, caótico e bem humorado, ele se distanciava do rigor do concretismo e do diletantismo dos neolíricos. Por isso, se colocava confortavelmente na fronteira entre os dois grupos, sem por isso gerar desconfiança e desprezo de ambos.

“Toda Poesia”
Companhia das Letras
Páginas: 424
Formato: 14.00 x 21.00 cm
Peso: 0.51000 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 27/02/2013
ISBN 9788535922233

Leia um dos poemas contidos no livro:

quarenta clics em curitiba [1976]

Compra a briga das coisas
Gigante em vão
Contra a parede branca
Prega a palma da mão

Uma vida é curta
para mais de um sonho

Será preciso
explicar o sorriso
da Mona Lisa
para que você
acredite em mim
quando digo
que o tempo passa?

o critério
“atitudes estranhas”
não dá
para condenar pessoas
criaturas
com entranhas

Quem me dera
um mapa de tesouro
que me leve a um velho baú
cheio de mapas do tesouro

Fechamos o corpo
como quem fecha um livro
por já sabê-lo de cor.

Fechando o corpo
como quem fecha um livro
em língua desconhecida
e desconhecido o corpo
desconhecemos tudo.

Só mesmo um velho
para descobrir,
detrás de uma pedra,
toda a primavera.

O tempo todo caminha.
Se para,
acompanha-se
de uma só linha
era uma vez
era uma vez
era uma vez

Domingo
Canto dos passarinhos
Doce que dá para pôr no café

Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação.

Ruas cheias de gente.
Seis horas.
Comida quente.
Caçarolas.

Hesitei horas
antes de matar o bicho.
Afinal,
era um bicho como eu,
com direitos,
com deveres.
E, sobretudo,
incapaz de matar um bicho,
como eu.

Pense depressa.
O que veio?
Quem vem?
Bonito ou feio?
Ninguém.

os dentes afiados da vida
preferem a carne
na mais tenra infância
quando
as mordidas doem mais
e deixam cicatrizes indeléveis
quando
o sabor da carne
ainda não foi estragado
pela salmoura do dia a dia

é quando
ainda se chora
é quando
ainda se revolta
é quando
ainda

corpo entortado
contra o frio
saco às costas — vazio
está roubando o vento?

Amigo
Inimigo
Nada tive com o mar
Nem ele comigo
Fui homem de seco
Hoje posto a secar
Neste beco

O olho da rua vê
o que não vê o seu.
Você, vendo os outros,
pensa que sou eu?
Ou tudo que teu olho vê
você pensa que é você?

Frutas que só ficam
Maduras depois de colhidas
Minhas velhas conhecidas

Já não chove
Pessoas molham passos
As ruas pesadas

isso?
aqui?
já?
assim?

Amando,
aumenta
até duas mil vezes
o tamanho.

Depois de hoje
a vida não vai mais ser a mesma
a menos que eu insista em me enganar
aliás
depois de ontem
também foi assim
anteontem
antes
amanhã

isso aqui
acaso
é lugar
para jogar sombras?

quem é vivo
aparece sempre
no momento errado
para dizer presente
onde não foi chamado

o silêncio
se mete a maltratar
me ditando
abreviaturas de mim
e,
quem sabe,
a mim mesmo me dilatando

tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando

Como é que a noite vira dia?
O dia vira noite?
Só vendo.
Tudo que sabemos.

o tempo
entre o sopro
e o apagar da vela

Achar
a porta que esqueceram de fechar.
O beco com saída.
A porta sem chave.
A vida.

O tempo fica
cada vez
mais lento
e eu
lendo
lendo
lendo
vou acabar
virando lenda

Ainda vão me matar numa rua.
Quando descobrirem,
principalmente,
que faço parte dessa gente
que pensa que a rua
é a parte principal da cidade.

de repente descobri
não digo américa nem pólvora
obra de tantos
conta perdida
ficar na ponta dos pés
além de nobre exercício
a mais sábia medida
para subir na vida

este dia
este perverso dia
que veio depois de ontem

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