Maria Gomes, poemas

Maria Gomes.

 

MARIA GOMES..

 

Quando a noite vem

 

meu amor, tenho sentido frio em janeiro.

a neve é nítida quando a noite vem trazer

a morte rápida da luz. aquela luz que não chega

ao princípio dos olhos ou ao fim de um caminho.

numa encosta onde as palavras se põem verdes

incendeiam-se as mãos que são poucas.

todas as mãos são poucas para dizê-las.

e como custa escrever, as mãos.

às vezes, é gélida a glândula da escrita.

e eu tenho uma vontade infinita de falar em silêncio.

 

 

 

 

Os melros

 

só eu movi os melros na tempestade

elevei a árvore

dos dedos na poesia profana

celebrei as nuvens

na batuta dos maestros

esquecidas

pelas tômbolas da sorte

e na voz de um poeta que disse

que a morte é uma formosa flor ensandecida

só eu arranhei as guelras

como os cachimbos secos dos velhos

a viver do mar.

 

só eu

e o músculo contaminado de um olhar.

 

 

 

 

Romãs de vidro

 

um dia, ficaste triste como a noite.

e nunca mais a noite foi.

o tempo tem um rosto. e as manhãs

são romãs de vidro.

 

és sobre o exílio o muro que a língua eleva,

tanges uma lira;

cabe-te uma canção

uma canção de amanhecer imperecível.

 

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